Como montar um orçamento mensal e sobrar dinheiro
Passo a passo do orçamento pessoal, modelo de planilha de gastos mensais para copiar, regra 50/30/20 adaptada à renda baixa e quanto guardar de reserva.
Para montar um orçamento mensal que sobre dinheiro, anote sua renda líquida, liste os gastos fixos, os variáveis e os anuais divididos por 12, e separe a poupança assim que o salário cair. Uma planilha de controle financeiro pessoal com cinco colunas dá conta disso, e o modelo para copiar está mais abaixo.
O orçamento também mostra quanto da renda já está preso em dívidas, e para muita gente esse pedaço é grande. Em agosto de 2026, 82% das famílias brasileiras tinham dívidas a vencer, 29,9% estavam com contas em atraso e 12,5% diziam não ter condições de pagá-las, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da CNC. O comprometimento médio da renda com dívidas ficou em 29,5%.
Como montar um orçamento pessoal: passo a passo
O Banco Central sugere montar o orçamento em quatro etapas: planejamento, registro, agrupamento e avaliação (Caderno de Educação Financeira, edição de 2026). O passo a passo abaixo segue essa lógica:
- Descubra sua renda líquida, o valor que cai na conta depois dos descontos. Se parte dela varia, como comissão de vendas ou aula particular, use como base o mês mais fraco do último semestre.
- Liste os gastos fixos, que mudam pouco de um mês para outro, como aluguel e prestação de financiamento.
- Estime os gastos variáveis, como luz e água, que dependem do consumo. Puxe os extratos e as faturas do cartão dos últimos três meses para não chutar.
- Divida os gastos anuais por 12. O BC chama de despesas sazonais contas como IPTU, IPVA, Imposto de Renda e material escolar, além de datas como Natal e aniversários. Se o IPVA custa R$ 1.200 por ano (valor de exemplo), reserve R$ 100 por mês.
- Inclua o que você já contratou: prestações a vencer e faturas de cartão.
- Separe a poupança primeiro. O caderno do BC recomenda se pagar primeiro, tirando a parte da reserva assim que o salário entra, de preferência com transferência automática.
- Registre e avalie. Anote os gastos, de preferência todo dia, agrupe por categoria e, no fim do mês, veja se o orçamento ficou superavitário (você gastou menos do que recebeu), neutro ou deficitário. A meta, segundo o BC, é ficar superavitário.
Modelo de planilha de gastos mensais para copiar
Copie a tabela para o Google Planilhas ou o Excel. Os valores são de exemplo, redondos, para uma renda líquida hipotética de R$ 3.000. Troque pelos seus.
| Categoria | Tipo | Previsto (R$) | Realizado (R$) | Diferença (R$) |
|---|---|---|---|---|
| Aluguel e condomínio | Fixo | 900 | 900 | 0 |
| Luz | Variável | 120 | 135 | -15 |
| Água | Variável | 60 | 55 | 5 |
| Internet e celular | Fixo | 100 | 100 | 0 |
| Mercado | Variável | 600 | 640 | -40 |
| Transporte | Variável | 250 | 230 | 20 |
| Curso ou faculdade | Fixo | 200 | 200 | 0 |
| Lazer e delivery | Variável | 200 | 260 | -60 |
| Assinaturas | Fixo | 50 | 50 | 0 |
| Anuais divididos por 12 (IPVA, material, presentes) | Anual | 100 | 100 | 0 |
| Reserva de emergência | Poupança | 300 | 300 | 0 |
| Total | 2.880 | 2.970 | -90 |
Com a tabela colada a partir da célula A1, a coluna Diferença usa a fórmula =C2-D2, arrastada até a linha 12. Na linha de total, use =SOMA(C2:C12) e repita para as colunas D e E. Diferença negativa quer dizer que você gastou mais que o previsto naquela linha. No exemplo, a renda de R$ 3.000 menos os R$ 2.970 realizados deixa R$ 30 livres, além dos R$ 300 que já foram para a reserva. O lazer estourou R$ 60, e é por ali que o mês seguinte começa a ajustar.
Regra 50/30/20: o que é e de onde vem
A regra 50/30/20 vem do livro All Your Worth: The Ultimate Lifetime Money Plan, publicado em 2005 pela Simon & Schuster e escrito pela senadora americana Elizabeth Warren com a filha, Amelia Warren Tyagi (Google Livros). O livro divide o dinheiro em três grupos: o que é indispensável, o que é desejo e o que vai para a poupança.
Pela descrição da Experian, de abril de 2026, a base é a renda líquida: no máximo 50% vai para necessidades, no máximo 30% para desejos e pelo menos 20% para poupança e pagamento de dívidas. Com a renda de exemplo de R$ 3.000, seriam até R$ 1.500 para o essencial, até R$ 900 para desejos e pelo menos R$ 600 para guardar ou quitar dívidas.
Como adaptar a regra 50/30/20 quando a renda é baixa
No modelo de planilha acima, só aluguel, contas da casa, mercado, transporte e curso somam R$ 2.230, ou 74% da renda de exemplo. Com esse peso no essencial, os 50% não fecham. A pressão aparece nos dados da Peic: entre as famílias com renda de até três salários mínimos, 85,1% tinham dívidas em agosto de 2026, e a inadimplência chegou a 38,8%, a única faixa em que ela subiu no mês (CNC).
Nesse caso, use a regra como ordem de prioridade: primeiro o essencial, depois uma parte para guardar ou quitar dívida, e o que sobrar para desejos. Comece com o percentual de poupança que cabe, mesmo que seja 5%, e aumente quando cortar um gasto ou quando a renda subir.
Se há dívida atrasada, ela vem antes da reserva. O caderno do Banco Central orienta usar o que sobrar dos cortes para pagar as dívidas em primeiro lugar, trocar dívidas de juros altos por outras de juros menores e considerar a portabilidade de crédito para uma instituição com taxa e custo efetivo total (CET) menores. Quando nem os cortes fecham a conta, o BC sugere buscar renda extra, com horas extras, trabalhos que usem habilidades que você já tem ou a venda de objetos parados em casa.
Onde cortar primeiro
O Caderno de Educação Financeira separa os gastos em três tipos e diz o que fazer com cada um:
| Tipo de gasto | Exemplos do Banco Central | O que fazer |
|---|---|---|
| Desperdício | Multas, pagar por algo e não usar, luz acesa e torneira aberta | Eliminar por completo |
| Supérfluo | Restaurantes, TV a cabo, roupas de marca | Reduzir ou eliminar |
| Necessário | Alimentação, moradia, vestuário | Otimizar, procurando alternativas |
Comece pela primeira linha. O próprio BC pergunta que benefício traz um streaming que você não assiste, um clube que você não frequenta ou um plano de internet grande para quem só usa mensagens. Depois olhe os pequenos gastos, porque a soma de muitos valores baixos pode pesar no fim do mês. No grupo das necessidades, o trabalho é pagar menos pelo mesmo item. Veja como economizar nas compras de roupa e como os apps de cashback devolvem parte do que você já ia gastar.
Reserva de emergência: quanto guardar e onde deixar
A reserva cobre o imprevisto de verdade, como uma batida no carro, um eletrodoméstico quebrado ou um problema de saúde na família, exemplos do Banco Central. O BC trata essa reserva como proteção contra o endividamento. Não confunda com despesa sazonal, como IPVA e material escolar, que entra no orçamento pela linha dos anuais divididos por 12.
O tamanho recomendado varia com a estabilidade da renda. A Serasa, em texto de agosto de 2026, sugere de 3 a 6 meses de despesas essenciais para servidores públicos, cerca de 6 meses para trabalhadores com carteira assinada e de 9 a 12 meses para autônomos e PJ. Em texto do Bora Investir, portal de educação financeira da B3, o planejador financeiro Jeff Patzlaff cita a recomendação clássica de 6 a 12 vezes as despesas fixas mensais.
No modelo de planilha, o essencial soma R$ 2.230. Seis meses disso dariam R$ 13.380, e guardando R$ 300 por mês você chegaria lá em cerca de 45 meses, sem contar o rendimento. Para a meta não parecer distante demais, divida em etapas: primeiro um mês de despesas essenciais, depois três, depois seis. A Calculadora do Cidadão, do Banco Central, tem a opção “aplicação com depósitos regulares”, que calcula quanto você terá depositando um valor fixo por mês a uma taxa de juros que você informa.
Para guardar a reserva, o BC orienta usar um investimento de alta liquidez e baixo risco, porque você vai precisar dela rápido e sem perdas. A Serasa e os especialistas ouvidos pela B3 citam como exemplos o Tesouro Selic e CDBs com liquidez diária.
Ferramentas gratuitas para controlar o orçamento
O Caderno de Educação Financeira do Banco Central, revisado em 2026, tem módulos sobre orçamento, crédito e dívidas, consumo planejado e poupança, com exercícios e gabarito. A Calculadora do Cidadão também existe em versão para celular, segundo o próprio caderno.
O Registrato, também do BC, é gratuito e mostra dívidas e compromissos com bancos e outras instituições financeiras no seu nome, o que ajuda a não esquecer nenhuma parcela no passo 5. Para entrar, você precisa de conta gov.br nível prata ou ouro com verificação em duas etapas ativada, segundo a Serasa.
O Meu Bolso em Dia é uma plataforma gratuita da Febraban com conteúdos sobre dívidas, poupança e investimento e uma jornada personalizada para cada perfil financeiro (Febraban). Para o controle do dia a dia, a planilha deste guia basta.
Um orçamento mensal que sobra dinheiro começa pela renda líquida, passa pelos gastos fixos, variáveis e anuais divididos por 12 e separa a poupança no dia do pagamento. A regra 50/30/20 serve de referência, e a comparação entre previsto e realizado mostra, a cada mês, onde ajustar. Com o orçamento pronto, o próximo passo é planejar as compras maiores para os períodos de desconto, com o calendário de datas de promoção.
Fontes
Todas consultadas em 24/09/2026.
- Banco Central do Brasil: Caderno de Educação Financeira, conteúdo básico, 2ª edição, 2026 (PDF)
- CNC/Portal do Comércio: Peic de agosto de 2026, famílias de menor renda lideram avanço na inadimplência (10/09/2026)
- Google Livros: All Your Worth, The Ultimate Lifetime Money Plan (Simon & Schuster, 2005)
- Experian: What Is the 50/30/20 Budget Rule? (abril de 2026)
- Serasa: Como calcular e onde guardar a reserva de emergência (agosto de 2026)
- B3 Bora Investir: Reserva de emergência, veja quanto e onde investir (outubro de 2025)
- Banco Central do Brasil: Calculadora do Cidadão
- Banco Central do Brasil: Registrato
- Serasa: Como consultar o Registrato (agosto de 2026)
- Febraban: Meu Bolso em Dia
Perguntas frequentes
- Como fazer uma planilha de controle financeiro pessoal?
- Crie colunas para categoria, tipo de gasto, valor previsto, valor realizado e diferença. Nas linhas, coloque gastos fixos, variáveis, os anuais divididos por 12 e a poupança. Some cada coluna com =SOMA e, no fim do mês, compare o previsto com o realizado. O mesmo modelo funciona no Google Planilhas e no Excel.
- O que é a regra 50/30/20?
- É uma divisão da renda líquida que vem do livro All Your Worth, de 2005, escrito por Elizabeth Warren e Amelia Warren Tyagi. No máximo 50% vai para necessidades, no máximo 30% para desejos e pelo menos 20% para poupança e pagamento de dívidas. Quando o essencial passa de 50% da renda, a regra precisa de ajuste.
- Quanto guardar na reserva de emergência?
- Depende da estabilidade da renda. A Serasa sugere de 3 a 6 meses de despesas essenciais para servidores, cerca de 6 meses para quem tem carteira assinada e de 9 a 12 meses para autônomos. Um planejador financeiro ouvido pelo portal de educação financeira da B3 fala em 6 a 12 vezes as despesas fixas mensais. O Banco Central orienta guardar em aplicação de alta liquidez e baixo risco.
- Onde cortar gastos primeiro?
- O Banco Central divide os gastos em três grupos. Desperdícios, como multas e serviços pagos que você não usa, devem ser eliminados. Supérfluos, como restaurantes e roupas de marca, podem ser reduzidos ou eliminados. Necessários, como moradia e alimentação, devem ser otimizados com alternativas mais baratas. Se sobrar dinheiro, pague as dívidas primeiro.
- Existe ferramenta gratuita para controlar o orçamento?
- Existe. O Banco Central oferece a Calculadora do Cidadão, que simula aplicações com depósitos mensais, o Registrato, que mostra dívidas com bancos no seu nome, e o Caderno de Educação Financeira. A Febraban mantém o Meu Bolso em Dia, plataforma gratuita com jornada personalizada. Para o controle do dia a dia, uma planilha simples resolve.